Mannlicher

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Mecanismo da modelo 1888, mostrando o carregador descartável Mannlicher e vistas do ferrolho mauser.

Devemos iniciar esta página apontando que esta arma não é uma Mannlicher, no sentido clássico da palavra, já que não foi desenhada pelo projetista austríaco Ferdinand Ritter von Mannlicher. Na verdade, é um projeto híbrido, resultante dos trabalhos de uma comissão alemã de 1888 (daí um dos nomes da arma: fuzil da comissão), que reuniu detalhes de diversas armas então existentes, como um ferrolho Mauser (há pessoas que chamam esta arma de Mauser, mas não é o caso). O mecanismo de carregamento, contudo, é baseado nas idéias do inventor austríaco, sendo que o sistema de ejeção do carregador vazio, por uma abertura existente embaixo do depósito, é inconfundível. Esta característica levou a muitas pessoas a classificarem esta arma como uma "Mannlicher" – inclusive no Brasil, onde ela é chamada nos manuais do exército por este nome, apesar do nome oficial ser: "Fuzil Alemão modelo 1888" – deve-se notar que é com esta arma que primeira vez aparece o nome fuzil em um manual oficial do Exército.

A arma foi escolhida no Brasil como resultado de experiências feitas logo após a proclamação da República, para substituir as carabinas Comblain. Um autor do período (Borges Fortes), menciona que teria sido escolhida para testes em grande escala uma carabina modificada, com alterações no ferrolho, mas que esses testes teriam sido interrompidos: "para atender às necessidades urgentes criadas pelo aumento das tropas combatentes, comprou [o Exército] na Europa o único [equipamento] que encontrou em quantidade suficiente, o próprio modelo alemão 1888".

Apesar do que Borges Fortes escreve, isso não está correto, pois as armas já foram distribuídas à tropa em 1892, antes do início da Revolução Federalista, o que indica que foi a escolha final da Comissão Técnica Militar Consultiva. Curiosamente, a carabina Belga do modelo 1889, claramente superior à carabina modelo 1888, ficou em segundo lugar nos testes, talvez devido ao fato de ainda não estar disponível no mercado, ou por não estarem ainda em uso oficial em nenhum país.

De qualquer forma, as modelo 1888 foram revolucionárias por uma série de aspectos: era a primeira arma de repetição de uso geral da infantaria brasileira, a primeira que usava cartuchos de pólvora sem fumaça, de alta velocidade inicial e a primeira de calibre reduzido (7,92 mm versus o normal até então, de 11 mm). Além disso, era municiada com cinco cartuchos colocados em um carregador metálico. Este ficava na arma até o último cartucho ser disparado, sendo descartado automaticamente em seguida, característica que aumentava em muito a cadência de fogo possível da arma, especialmente em relação às de carregador tubular.

Carregadores e cartuchos recuperados em escavações arqueológicas em Canudos.

Essas características podem parecer pequenas, mas o uso de cartuchos de pólvora sem fumaça, por exemplo, permitiu que pela primeira vez se pudesse usar de forma eficiente franco-atiradores no campo de batalha: antes disso, a nuvem de fumaça do tiro sempre revelava a posição do atirador. O calibre reduzido também era uma característica muito importante: com o peso de 90 cartuchos de Comblain, os soldados agora podiam carregar 150 cartuchos, o que permitia aproveitar a maior cadência de fogo agora disponível.

A mudança das Comblain para as novas carabinas foi sendo feita aos poucos, primeiramente se equipando as unidades do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, enquanto as outras receberiam as armas paulatinamente, como era o caso normal do Exército. Desta forma, a Revolução Federalista ainda veria algumas unidades equipadas com os fuzis antigos de tiro simples – ou, no caso das unidades provisórios, de voluntários, até com armas mais exóticas, como Chassepots, Westley-Richards, ou até Kropatscheks.

Soldados do 10º Batalhão de infantaria, armados com carabinas modelo da Comissão, observam o quartel de Fuzileiros Navais, Rio de Janeiro, Revolta da Armada, 1895.

Usadas em combate, a experiência do conflito seria muito negativa para a avaliação da arma. O mecanismo, aberto em baixo para que o carregador vazio pudesse cair, era muito sujeito à danos por falta de manutenção. Defeitos do projeto alemão eram variados, muitos deles insolúveis, outros nem tanto. Por exemplo, a pólvora sem fumaça adotada (Rottweil 91/93) era problemática, levando a uma rápida erosão dos canos: em 1893, na Alemanha, metade das armas em depósito precisava de trocar os canos. Havia a possibilidade de escape de gases pela culatra da arma – o que era, no mínimo, assustador para o atirador e, na pior das hipóteses, podia queimar-lhe o rosto. O ferrolho Mauser, modificado pela Comissão Alemã, podia ser montado incorretamente, além de apresentar sérios problemas de extração, que levavam à possibilidade de explosão de cartuchos não deflagrados no cano da arma, ao se alimentar um novo cartucho: na Alemanha, em um só ano, ocorreram quase 1.000 incidentes de tiro. Finalmente, o cano era recoberto por um sobrecano (manchon), numa tentativa – infrutífera – de se diminuir os problemas de superaquecimento da arma (o cano podia chegar a 150 graus, em fogo rápido). Esse sobrecano, além de ser custoso e menos eficiente que a velha telha, adotada na Comblain n. 2, era frágil, podendo ser facilmente danificado, além de dificultar a manutenção.

Soldado do 7º Batalhão de infantaria, Canudos, 1898. O orifício na parte inferior da arma, por onde cai o carregador vazio, é bem visível nesta foto. 

O Exército tentou resolver alguns desses problemas, como o da dupla alimentação, modificando aqui no Brasil o ferrolho da arma, mas isso não deu muito certo pois os outros defeitos ou eram inerentes ao desenho ou não podiam ser resolvidos aqui, especialmente considerando às pressões colocados sobre a intendência militar durante as Revoluções de 1893-1895. Desta forma, a modelo 1888 foi uma das armas de uso oficial mais curto no Brasil: adotada em 1892, as modificações brasileiras feitas no ferrolho foram determinadas no ano seguinte, mas já em 1894 tinha se encomendado um novo modelo na Europa, o Mauser. Mesmo assim, ainda seria a principal arma em uso nas revoluções Federalista e em Canudos, pois o processo de transição foi lento. Tão lento que, em Canudos, Comblains, Mannlichers e Mausers conviveram.

Este sistema também tem uma outra característica interessante: como foi a primeira arma adotada após a República, quando o regime de governo era federalista, foi possível aos Governos Estaduais comprarem armas sem terem que passar pelos arsenais governamentais, de forma que algumas polícias (Forças Públicas), adotaram a arma em compras diretas na Europa. Infelizmente, essas não têm detalhes que as distingam em relação às armas militares.

Após saírem de uso no Exército, as carabinas seguiram o mesmo caminho de todas as outras armas obsoletas: foram recolhidas aos depósitos, sendo paulatinamente distribuídas às forças policiais estaduais, clubes de tiro etc., até desaparecer de nossa história. Uma breve experiência foi feita em 1906, pelo Major Rego Barros, de se tentar adaptar um cano de Mauser modelo 1895 nesta arma, mas isso não considerado prático e as modificações não foram feitas.

Uma nota final: no Brasil foram usadas carabinas de procedência alemã (C.G. Haenel) e austríaca (Steyr). Essas armas são basicamente idênticas, apesar das austríacas terem vindo já com modificação no ferrolho, para diminuir a chance de dupla detonação de cartucho. Contudo, há um detalhe visivelmente diferente: as bainhas das baionetas. Nas armas de origem austríacas, essa é de couro, com guarnições de metal, enquanto nas armas alemãs, é totalmente metálica, de aço.

Carabina Mannlicher

Dados técnicos:

Calibre:

7,92 x57 mm

Comprimento:

124,5 cm

Peso:

 4,4 kg

Raias:

4 a direita

Alcance útil:

500 m

Alça de mira:

250 a 2.050 m

Carregador:

5 cartuchos

Cadência de fogo (útil):

22 tiros por minuto

Cadência de fogo (max):

40 tiros por minuto

Velocidade inicial:

646 m/s